Uma operação de grande escala deflagrada na manhã desta quinta-feira (28) colocou Sorocaba e cidades da região no centro de uma investigação que apura um esquema bilionário de lavagem de dinheiro, adulteração de combustíveis e sonegação fiscal com suposta ligação ao Primeiro Comando da Capital (PCC).
Batizada de “Fluxo Oculto”, a ação é um desdobramento da Operação Carbono Oculto, iniciada em 2025, e mobiliza mais de 530 agentes públicos em cinco estados brasileiros. Em Sorocaba, foram cumpridos três mandados de busca e apreensão contra pessoas físicas. Também houve ações em Votorantim, Itupeva e São José do Rio Preto.
A força-tarefa é coordenada pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de São Paulo, em conjunto com a Receita Federal, além de contar com apoio da Polícia Civil, Polícia Militar, Agência Nacional do Petróleo (ANP), Secretaria da Fazenda e Procuradoria-Geral do Estado.
Segundo os investigadores, a organização criminosa teria utilizado fintechs, empresas de fachada e postos de combustíveis para movimentar recursos ilícitos e dificultar o rastreamento financeiro. As investigações apontam que, entre 2022 e 2025, o grupo movimentou cerca de R$ 26 bilhões por meio de instituições de pagamento consideradas “bancos paralelos”.
O esquema utilizava um sistema conhecido como “conta-bolsão”, no qual valores de dezenas de postos eram centralizados em uma única conta bancária vinculada a fintechs. A identificação dos verdadeiros donos do dinheiro ocorreria apenas nos sistemas internos dessas instituições, dificultando o monitoramento por órgãos de controle, como o Banco Central e o Coaf.
Durante o cumprimento dos mandados, agentes apreenderam dinheiro em espécie em diferentes moedas, incluindo reais, dólares, euros e rand sul-africano, além de passaportes e documentos. Até a publicação desta reportagem, o valor total apreendido não havia sido divulgado.
As investigações também apontam que o grupo continuou operando mesmo após a primeira fase da Operação Carbono Oculto. Segundo o Ministério Público, empresas e fintechs passaram por mudanças societárias e migração de recursos entre instituições financeiras para tentar despistar as autoridades.
Entre os principais alvos da investigação estão empresários e operadores financeiros apontados como integrantes do núcleo do esquema. De acordo com o MP, Mohamad Hussein Mourad, conhecido como “Primo”, e Roberto Augusto Leme da Silva, o “Beto Louco”, seriam líderes da estrutura criminosa. Ambos estão foragidos desde agosto do ano passado.
As autoridades investigam ainda uma frente relacionada à chamada “máfia do nafta”, esquema que consistia na utilização ilegal de solventes petroquímicos de baixa tributação para adulterar gasolina automotiva. Conforme o Ministério Público, empresas de fachada simulavam operações industriais enquanto o produto era desviado diretamente para distribuidoras e terminais de combustíveis.
A investigação aponta o desvio de mais de 135 milhões de litros de nafta em pouco mais de dois anos. O prejuízo estimado aos cofres públicos com a fraude tributária ultrapassa R$ 200 milhões.
Outra linha investigativa envolve fundos de investimento utilizados para ocultação patrimonial e lavagem de dinheiro. Segundo os investigadores, os recursos obtidos com a venda de combustíveis adulterados eram direcionados para fundos fechados que funcionariam como uma camada adicional de blindagem financeira.
Ao todo, a Operação Fluxo Oculto cumpre cerca de 60 mandados de busca e apreensão em cidades dos estados de São Paulo, Paraná, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul. Em São Paulo, além de Sorocaba e Votorantim, as ações ocorreram na capital, Barueri, Paulínia, Santos, Arujá, Atibaia, Itupeva e São José do Rio Preto.
As investigações seguem em andamento e os envolvidos poderão responder por crimes de lavagem de dinheiro, organização criminosa, adulteração de combustíveis e sonegação fiscal.