O tiro que matou o policial militar Matheus Almeida Rodrigues, de 28 anos, durante um confronto após um assalto a uma drogaria no Parque Campolim, na Zona Sul de Sorocaba, partiu da arma utilizada por outro integrante da Polícia Militar. A conclusão foi apresentada em um laudo do Instituto de Criminalística (IC) e considerada pela Justiça na sentença publicada em 29 de outubro.
O caso aconteceu na madrugada de 11 de abril de 2026, após quatro homens armados invadirem uma drogaria na Avenida Professora Izoraida Marques Peres. Durante a ação, os criminosos roubaram dinheiro, um aparelho celular e medicamentos de alto custo. A tentativa de fuga terminou em um confronto com policiais militares, que deixou quatro mortos, sendo três suspeitos e o soldado Matheus.
A conclusão sobre a origem do disparo foi apresentada na sentença da juíza Margarete Pellizari, da 2ª Vara Criminal de Sorocaba. A magistrada afastou a acusação de latrocínio contra Vitor dos Santos Alencar Conceição, único suspeito sobrevivente, e o condenou a 15 anos, seis meses e 20 dias de prisão, em regime inicial fechado, pelo crime de roubo majorado.
Para identificar a origem do tiro, os peritos compararam o projétil retirado do crânio do policial com padrões balísticos de oito pistolas utilizadas pelos agentes que participaram da ocorrência. O exame identificou correspondência com uma pistola Glock, calibre .40, utilizada por outro policial militar.
O laudo, assinado em 22 de abril, também apresentou informações sobre a dinâmica do confronto. Durante os trabalhos periciais, foram encontrados 76 estojos de munição deflagrada, todos com identificação da Polícia Militar. Desse total, 66 eram de calibre .40, seis de calibre 5,56 milímetros e quatro de calibre 12.
Além disso, a perícia constatou que as perfurações identificadas no veículo utilizado pelos suspeitos apresentavam trajetórias de fora para dentro.
De acordo com a sentença, Matheus não integrava as primeiras equipes que interceptaram o automóvel após o roubo. O soldado chegou posteriormente, em uma viatura de apoio, quando o confronto inicial já havia terminado e o suspeito sobrevivente havia fugido do veículo.
O disparo fatal aconteceu durante uma nova intervenção policial, no momento em que os agentes realizavam uma varredura no automóvel imobilizado.
Durante as investigações iniciais, a Polícia Civil já havia levantado dúvidas sobre a origem do tiro. Na ocasião, os depoimentos e as imagens disponíveis não permitiam determinar se o disparo havia partido dos assaltantes ou dos próprios policiais.
Apesar da identificação da arma, o resultado pericial não estabelece, isoladamente, eventual responsabilidade criminal do agente que efetuou o disparo. As circunstâncias das mortes e da atuação policial permanecem sob investigação específica, incluindo um Inquérito Policial Militar (IPM).
O Ministério Público de São Paulo (MPSP) apresentou recurso contra a sentença na terça-feira (3). A manifestação foi assinada pelo promotor de Justiça José Júlio Lozano Júnior, da 13ª Promotoria de Justiça de Sorocaba.
Embora não conteste a conclusão de que o disparo partiu da arma de outro policial, o Ministério Público defende que os envolvidos no assalto podem ser responsabilizados pela morte do soldado.
Segundo o entendimento da Promotoria, a ação criminosa criou a situação de risco que provocou a intervenção policial e resultou na morte de Matheus. Dessa forma, a origem do disparo não afastaria necessariamente a possibilidade de responsabilização pelo crime de latrocínio.
Por outro lado, a juíza considerou que não havia provas suficientes para estabelecer o vínculo jurídico entre a conduta do acusado e a morte do policial. A magistrada destacou que o disparo ocorreu em uma etapa posterior da ocorrência, quando o réu já havia deixado o local imediato do confronto.
Além de solicitar o reconhecimento do crime de latrocínio, o Ministério Público questionou a absolvição do acusado pelos crimes de receptação e adulteração de sinal identificador de veículo.
Durante o assalto, os criminosos levaram R$ 3.696 em dinheiro, o celular de uma funcionária e 65 caixas de medicamentos de alto custo, avaliados em mais de R$ 100 mil. Três integrantes do grupo morreram durante os confrontos, enquanto o quarto suspeito conseguiu fugir a pé, sendo posteriormente localizado por policiais do 14º Batalhão de Ações Especiais de Polícia (Baep), escondido no forro de um imóvel abandonado.
A sentença ainda poderá ser revista pela Justiça em razão do recurso apresentado pelo Ministério Público. Paralelamente, as investigações sobre a atuação dos policiais envolvidos deverão esclarecer as circunstâncias dos disparos e eventuais responsabilidades.
A Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP) e a Polícia Militar ainda não haviam apresentado novos esclarecimentos sobre as conclusões periciais e o andamento das investigações até as últimas informações divulgadas.