28 de abril de 2026

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Projeto do “Dia de Ogum” avança sob pressão popular, enfrenta entraves e expõe divisão na Câmara de Iperó

Projeto que cria o Dia de Ogum em Iperó ganha apoio popular, mas enfrenta divisão na Câmara e segue travado na Comissão de Justiça aguardando parecer para votação em plenário.

O Projeto de Lei nº 17/2026, de autoria do vereador Bob Moraga, que institui o “Dia de Ogum” no calendário oficial de Iperó, se consolidou como um dos temas mais relevantes e sensíveis do cenário político local. A proposta estabelece o dia 23 de abril como data oficial da celebração e busca reconhecer institucionalmente uma manifestação cultural, religiosa e social já presente na cidade.

O texto determina que a data passe a integrar o calendário cultural e religioso do município, reconhecendo sua importância histórica, social e cultural, além de permitir a realização de atividades culturais, educativas e religiosas com participação do poder público e da sociedade civil, respeitando a liberdade de crença e a laicidade do Estado .

Proposta resgata histórico e reforça identidade local

A iniciativa não é inédita. O projeto foi inicialmente apresentado em 2025 por outro vereador, mas acabou sendo retirado antes da votação. Em 2026, Bob Moraga reassumiu o compromisso de reapresentar a proposta, recolocando o tema no centro das discussões legislativas.

Segundo o autor, a proposta vai além do aspecto religioso e representa um marco para o município:

“A importância de incluir o ‘Dia de Ogum’ no calendário oficial da cidade. O projeto foi inicialmente apresentado por outro vereador em 2025 e, diante de sua retirada, assumi o compromisso de reapresentá-lo, o que foi feito. Trata-se de uma proposta que vai além do aspecto religioso, representando um marco na valorização da diversidade cultural, histórica e social de Iperó.”

Na justificativa do projeto, a figura de Ogum é apresentada como central nas tradições de matriz africana, sendo reconhecido como o orixá dos caminhos, do ferro e da metalurgia, símbolo de força, coragem e proteção. A proposta estabelece ainda uma conexão direta entre essa simbologia e a formação histórica do município, marcada pela atividade siderúrgica, pela ferrovia e pela construção de caminhos que impulsionaram o desenvolvimento local .

Tradição já existente fortalece proposta

Um dos pilares do projeto é o reconhecimento de uma prática já consolidada na cidade. Há pelo menos dois anos, celebrações em homenagem a Ogum são realizadas na Estação Ferroviária de Iperó, reunindo moradores e visitantes de cidades como Boituva, Sorocaba e Capela do Alto.

Os eventos envolvem manifestações culturais, atividades religiosas, palestras e ações sociais, incluindo a distribuição de centenas de refeições à população, consolidando-se como um importante instrumento de integração comunitária e valorização cultural .

Além disso, o município conta com cerca de 15 terreiros, muitos deles com atividades abertas à comunidade, reforçando o caráter coletivo e cultural dessas tradições.

Cidade plural e debate sobre igualdade religiosa

Iperó apresenta um cenário de forte pluralidade religiosa, com aproximadamente 30 igrejas e mais de 15 terreiros. No entanto, nem todas as manifestações possuem o mesmo nível de reconhecimento institucional.

O município já possui datas oficiais e legislações específicas voltadas a outras religiões, como a celebração de Santo Antônio, padroeiro da cidade em 13 de junho, além do Dia do Evangélico, instituído por lei, e a existência do Conselho Municipal de Pastores Evangélicos.

Nesse contexto, o vereador defende que o projeto surge como medida de equilíbrio:

“Iperó é uma cidade de forte pluralidade religiosa, com cerca de 30 igrejas e mais de 15 terreiros, onde diferentes crenças já possuem reconhecimento e espaço. A tradição católica celebra Santo Antônio em 13 de junho, padroeiro da cidade, e o segmento evangélico também conta com legislação específica (…) Nesse contexto, o Dia de Ogum surge como uma medida de equilíbrio e reconhecimento, fortalecendo uma manifestação cultural já existente e ampliando sua visibilidade.”

Pressão popular impulsiona debate

A tramitação do projeto passou a ser diretamente influenciada pela mobilização popular. Um abaixo-assinado com mais de 300 assinaturas pressiona a Câmara Municipal pela votação da proposta, evidenciando o engajamento de moradores e lideranças culturais.

A movimentação externa ampliou a visibilidade do tema e levou o debate para além do ambiente legislativo, reforçando o entendimento de que a proposta possui relevância social.

Divisão política e resistência interna

Apesar do avanço do debate público, o projeto enfrenta resistência dentro da Câmara. O próprio autor reconhece o cenário de divergência:

“Está sendo bem discutido e as opiniões estão meio divididas dentro da Casa legislativa, fora a isso existe uma movimentação externa com um abaixo assinado, e uma participação popular em apoio ao projeto bem positiva.”

O tema ganhou contornos ainda mais delicados por estar inserido em um período pré-eleitoral, em que pautas religiosas tendem a gerar maior cautela e posicionamentos estratégicos por parte dos agentes públicos.

Mesmo diante da resistência, o vereador tem adotado um discurso firme em defesa da proposta:

“Respeitar a fé do outro é fortalecer a democracia.”

“O poder público deve garantir igualdade entre todas as manifestações religiosas, sem preconceito, seguir adiante com o projeto é cumprir o dever de legislar para todos, sem distinção”.

“Um mandato comprometido com a justiça não se cala diante da intolerância, não se cala diante do preconceito! Quem tá pra legislar tá pra legislar pra todo mundo, quem quer ser prefeito, vice prefeito na próxima eleição vai ter que governar pra todos!”

Tramitação travada e expectativa de votação

Atualmente, o projeto está parado na Comissão de Justiça e Redação, aguardando as assinaturas necessárias para seguir ao plenário. Segundo o autor, o parecer já foi assinado por ele na condição de relator:

“A expectativa é que o projeto seja votado na próxima sessão, prevista para o dia 28 de abril porem o Projeto está parado na Comissão de Justiça e Redação aguardando a assinatura do Presidente e do membro, visto que eu faço parte dessa comissão como Relator e ja assinei o Parecer sigo aguardando a assinatura dos meus colegas para que entre na ordem do dia e assim poder ser votado pela maioria.”

Debate expõe desafio do poder público

O caso do “Dia de Ogum” evidencia um dos principais desafios do Legislativo municipal: equilibrar convicções individuais, pressões políticas e o dever de representar uma sociedade diversa.

Entre apoio popular crescente, fundamentação histórica e cultural consistente e resistência institucional, o projeto se transforma em um dos temas mais emblemáticos do ano em Iperó, colocando em pauta não apenas a criação de uma data comemorativa, mas o posicionamento do poder público diante da diversidade religiosa, da inclusão e do respeito às diferentes identidades que compõem o município.

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