Três homens presos em Piracicaba no último sábado (19) afirmaram à Polícia Militar que estavam na cidade para atuar na campanha eleitoral de Sirlange Manga (União Brasil), candidata a deputada federal e esposa do prefeito de Sorocaba, Rodrigo Manga. A ocorrência ganhou novos contornos após informações do boletim de ocorrência e registros oficiais apontarem a presença de material eleitoral no veículo e o vínculo recente de um dos detidos com a Prefeitura de Sorocaba.
Wilson Solano Paes Neto, Leonardo Batista Rodrigues e Weslley Aristoteles dos Santos Lima foram abordados em um Chevrolet Onix que circulava sem placas pela Avenida Independência, no bairro Higienópolis. A ocorrência teve início depois que um participante da Marcha para Jesus relatou a um agente de trânsito ter sido atingido no ombro por um objeto lançado de um veículo branco sem identificação. O carro foi acompanhado até a abordagem da Polícia Militar.
Segundo informações registradas na ocorrência, Wilson teria admitido aos policiais que as placas do veículo foram retiradas propositalmente para que o grupo fosse ao local e realizasse disparos com armas de airsoft contra participantes do evento. Ainda conforme o registro policial, Leonardo e Weslley teriam confirmado a versão apresentada aos militares.
Durante a vistoria, foram localizadas cinco armas de airsoft, cinco máscaras, três facas, quatro celulares, equipamentos eletrônicos, coletes, acessórios e munições de airsoft, além de uma munição intacta calibre .45 e as duas placas retiradas do automóvel. Entre os coletes apreendidos, um deles tinha identificação da Defesa Civil de Sorocaba.
No porta-malas também havia uma quantidade significativa de material de propaganda eleitoral. O boletim de ocorrência, entretanto, registrou que naquele momento não existiam elementos suficientes para relacionar o material político ao crime que motivou o flagrante. As peças de campanha foram fotografadas e posteriormente entregues ao advogado dos indiciados.
Outro elemento registrado na ocorrência foi a presença de um guarda civil municipal de Sorocaba. Conforme as informações do caso, o GCM compareceu durante a abordagem, declarou integrar a equipe de campanha de Sirlange Manga e afirmou ser o proprietário da munição calibre .45 localizada no veículo. Ele foi ouvido como testemunha e não está entre os três presos.
Os próprios ocupantes do carro disseram aos militares que estavam em Piracicaba para apoiar a campanha de Sirlange. A candidata também cumpria compromissos eleitorais no município naquele sábado. A agenda divulgada previamente previa uma caminhada pela manhã e participação, às 14h, na Marcha para Jesus, justamente o evento relacionado à ocorrência.
Informações constantes da apuração do caso apontam ainda que os quatro celulares apreendidos apresentavam referências ao número de telefone da candidata. O dado, isoladamente, não comprova eventual participação da campanha nos fatos que resultaram nas prisões.
Um dos presos também teve vínculo recente com a administração municipal de Sorocaba. Wilson Solano Paes Neto ocupou cargo comissionado na Prefeitura. Registros publicados no Jornal do Município mostram que ele foi nomeado para funções de assessor de gabinete durante 2026.
Wilson deixou o cargo em agosto, aproximadamente um mês antes da ocorrência em Piracicaba. Dessa forma, apesar do vínculo recente com a administração municipal, ele já não ocupava o cargo comissionado na data da prisão.
Os três homens foram conduzidos ao plantão policial e indiciados por adulteração de sinal identificador de veículo automotor, em razão da situação envolvendo o automóvel sem placas e as placas encontradas durante a abordagem. Depois da audiência de custódia, foram encaminhados ao Centro de Detenção Provisória (CDP) de Piracicaba. O automóvel e os objetos apreendidos permaneceram à disposição das autoridades.
Durante a apuração do episódio também surgiu a suspeita de que integrantes do grupo poderiam participar de uma possível simulação de sequestro envolvendo Rodrigo Manga e Sirlange Manga. A hipótese, entretanto, não consta no boletim de ocorrência inicialmente divulgado e, até o momento das informações disponíveis, não havia confirmação oficial da Polícia Civil sobre essa eventual linha de investigação.
A campanha de Sirlange Manga afirmou que “não há relação do ocorrido com campanha eleitoral, conforme consta no boletim de ocorrência”. A Prefeitura de Sorocaba, por sua vez, declarou que “não há envolvimento de funcionários públicos nesse caso”.
Apesar de os três detidos terem declarado à polícia que estavam na cidade para trabalhar na campanha, da existência de material eleitoral no automóvel e do relato do GCM de que integrava a equipe da candidata, o próprio registro policial fez a ressalva de que, naquele momento, não havia elementos que relacionassem o material de campanha ao crime investigado. O caso segue sob apuração das autoridades.