15/10/2026

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Fim da escala 6×1 pode elevar custos e provocar falta de trabalhadores em supermercados e na construção civil

Fim da escala 6x1 pode exigir 16,7% mais trabalhadores em alguns setores, elevar custos e pressionar preços, especialmente em supermercados e na construção civil.

A aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que determina o fim da escala de trabalho 6×1 e estabelece a jornada 5×2, com cinco dias de trabalho e dois de descanso semanal, poderá trazer desafios para diferentes setores da economia brasileira. Supermercados e empresas da construção civil estão entre os segmentos que podem enfrentar maiores dificuldades para adaptar suas operações às novas regras.

A proposta, aprovada pelo Senado na quarta-feira (14), reduz a jornada semanal de 44 para 40 horas, sem diminuição dos salários, e segue para promulgação. A mudança deverá exigir uma reorganização das escalas de trabalho, especialmente nas atividades que dependem de funcionamento contínuo e grande quantidade de funcionários.

Segundo cálculos do economista Hélio Zylberstajn, professor sênior da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA/USP), empresas que atualmente utilizam a escala 6×1 precisariam ampliar em aproximadamente 16,7% o número de trabalhadores para manter o mesmo nível de atividade, considerando a redução dos dias trabalhados.

O cenário preocupa principalmente setores que já enfrentam dificuldades para preencher vagas. No Estado de São Paulo, os supermercados registravam cerca de 35 mil postos de trabalho em aberto em maio deste ano. Na construção civil, o déficit de profissionais ultrapassava 100 mil vagas em meados de 2026, conforme informações do Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo (Sinduscon-SP).

Além da necessidade de novas contratações, as empresas deverão enfrentar o aumento do custo da mão de obra. De acordo com Daniel Duque, economista e pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), a mudança poderá elevar em aproximadamente 9% o custo por hora trabalhada.

O especialista avalia que o encarecimento poderá levar empresas a reduzir contratações, reorganizar horários de funcionamento e até diminuir a produção. “O que vemos quando há uma redução da jornada não é a contratação de mais pessoas, mas a contratação de menos. As empresas podem passar a produzir menos”, afirma Duque.

Nos supermercados, uma das possibilidades apontadas pelos economistas é o repasse de parte dos custos adicionais aos consumidores, provocando reajustes nos preços de produtos. Outra alternativa seria a reorganização das equipes e dos horários de atendimento para garantir o funcionamento dos estabelecimentos com a nova jornada.

Na construção civil, a preocupação envolve principalmente a escassez de trabalhadores e o risco de aumento da informalidade. Como o setor já apresenta participação significativa de profissionais sem vínculo formal, especialistas consideram que o aumento das despesas trabalhistas poderá estimular novas contratações informais.

Bruno Imaizumi, economista da consultoria 4intelligence, destaca que os impactos serão diferentes conforme as características de cada atividade econômica. Levantamento realizado pela consultoria, com base em dados do Ministério do Trabalho, aponta que aproximadamente 30% dos trabalhadores formais brasileiros cumprem atualmente a escala 6×1.

A modernização dos processos produtivos e o investimento em automação aparecem como alternativas para compensar a redução das horas trabalhadas. Entretanto, a adoção dessas tecnologias depende da capacidade financeira das empresas e das características de cada setor, sendo mais difícil em atividades que exigem trabalho manual.

Apesar das preocupações econômicas, a mudança também poderá proporcionar benefícios aos trabalhadores. A ampliação do período de descanso tende a contribuir para a redução do estresse, a melhoria da qualidade de vida e a diminuição de problemas relacionados à saúde mental.

Segundo projeção de Daniel Duque, a produtividade dos trabalhadores poderá aumentar cerca de 3% em decorrência da redução da jornada. Entretanto, o percentual ainda seria insuficiente para compensar integralmente o aumento dos custos enfrentados pelas empresas.

Para reduzir possíveis impactos negativos sobre o emprego e a atividade econômica, especialistas defendem uma implementação gradual das novas regras. Como exemplo, citam o Chile, que estabeleceu um período de cinco anos para reduzir a jornada semanal de 45 para 40 horas.

Os efeitos da nova escala sobre a economia brasileira dependerão da capacidade de adaptação das empresas, dos investimentos em produtividade e das estratégias adotadas para reorganizar as atividades. Enquanto os trabalhadores poderão contar com mais tempo de descanso, o setor produtivo terá o desafio de equilibrar custos, preservar empregos e manter o funcionamento dos serviços.

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